domingo, 11 de março de 2007

O dia em que não me vi

Caminho à chuva, eu mesmo, todavia um outro, sem tempo de partida ou destino de chegada, com percurso alterado pelas lembranças alucinógenas de outra vida, distante desta que não vivo. Caminho à chuva, aos passos curtos, um pedaço diferente de mim, agora, sem demasiadas esperanças. Caminha lado a lado, comigo uma sombra lânguida de ninguém. E esses braços, que não são asas, me cortam a carne, e sufocam a garganta porque não abraçam ninguém. Precisamente, nesse instante, estou numa esquina qualquer, de qualquer lado, e ninguém ferve um chá à espera de minha voz. Cai a carteira de couro antiga, ofertada como presente por uma mulher não sei de onde, que me namorava não sei o quanto, e que agora não carece desta presença vagante. Estranho que os joelhos estão mais curvados que se estivesse sentado, embora em pé, já não agridem o asfalto. É como se houvesse um corpo vazio através das ruas. E luzes quantas não me encontram! Caminho à chuva com misérias. Nenhum andante a cumprimentar minha aparição. E assim ando durante todo este tempo, neste dia em que, fatidicamente, não me vi.

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